Excesso de trabalho pode causar até 8 doenças crônicas

Alta carga horária reduz qualidade de vida e pode provocar câncer
Por Da Redação - Publicado 04/07/2016 - Atualizado 04/07/2016
Excesso de trabalho pode causar até 8 doenças crônicas
Quanto mais se faz longas jornadas de trabalho, mais se desgasta o corpo e a mente, aumentando os riscos para a saúde.
“O trabalho edifica o homem”. O ditado muito conhecido mostra como o trabalho é uma importante ferramenta social e moral de inclusão. Mas, e se você trabalhar demais? No Brasil, o padrão adotado é de 44 horas semanais, que são quase 9 horas por dia considerando uma escala de 5x2. 
Já o padrão mundial seguido por 40% dos países é de 40 horas semanais, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT). E é nesse índice que pesquisadores da Universidade de Ohio e da Mayo Clinic, nos EUA, se basearam para verificar a relação de doenças crônicas com a alta carga de trabalho.  
Eles analisaram dados de 7.492 homens e mulheres e seus históricos médicos por dois anos. Durante o estudo foram monitoradas oito doenças: câncer (exceto o de pele), artrite ou reumatismo, diabetes, doenças pulmonares, depressão, doenças cardíacas e hipertensão. 
Também foi analisada a quantidade de horas extras feitas por cada grupo de pacientes, onde mais da metade realizava entre 41 e 50 horas, 13% faziam entre 51 a 60 horas, 3% acima de 60 horas, e só um pequeno grupo atendia o período estabelecido de 40 horas ou menos. 
Sabe qual a conclusão da pesquisa? Grandes períodos de trabalho podem acarretar doenças crônicas.  Quanto mais se faz longas jornadas de trabalho, mais se desgasta o corpo e a mente, aumentando os riscos para a saúde.  
Os índices apontaram que aqueles que excedem a rotina acima de 51 horas apresentam mais risco de sofrer de câncer e doenças cardíacas. Até mesmo os que não ficam muitas horas a mais, excedendo apenas um pouco acima de 40 horas, já podem ter riscos de diabetes e artrite. E as mulheres, por uma jornada tripla entre trabalho, família e casa, sofrem ainda mais com a pressão. 
“Mais flexibilidade, acompanhamento médico e suporte da empresa podem ser um caminho para reduzir as chances de os trabalhadores ficarem doentes ou morrerem de doenças crônicas”, afirma Allard Dembe, um dos pesquisadores da Universidade de Ohio. 
No Brasil, em estudo mais recente realizado pelo Ministério da Previdência Social, feito em 2010, São Paulo foi a cidade com maior índice de doenças associadas ao trabalho, 5.973 casos, muito à frente do 2º colocado Rio de Janeiro com 2.068. Roraima foi a cidade com menor índice, apenas 5 casos. 
PEC 89/2015
A proposta que reduz a jornada de trabalho padrão no país de 44 horas semanais para 40 ainda está em tramitação no Senado Federal, aguardando designação do relator desde 9 de junho de 2016. De autoria do senador Paulo Rocha (PT-PA), a PEC altera o inciso XIII do art. 7º da Constituição Federal e prevê a redução gradual da carga horária até se atingir as 40 horas.  
Os trabalhadores não serão prejudicados ou terão seus benefícios e salários alterados, assegurados pela Proposta de Emenda à Constituição.
O juiz titular da 6ª Vara do Trabalho de Ribeirão Preto, José Antônio Ribeiro de Oliveira Silva, doutor em Direito do Trabalho e Seguridade Social e autor do livro “A flexibilização da jornada de trabalho e a violação do direito à saúde do trabalhador”, fala em entrevista ao Instituto Lado a Lado pela Vida como é possível associar a redução da jornada de trabalho com o mercado brasileiro e os ganhos dessa mudança para as empresas e os colaboradores. 
Instituto Lado a Lado pela Vida – É possível ter uma jornada de trabalho abaixo de 40 horas em qualquer profissão?
José Antônio -
 Sim, é plenamente possível. Algumas categorias profissionais já contam com jornadas especiais de seis horas diárias ou 30 horas semanais (bancários), de seis diárias ou 36 horas semanais (telefonistas, operadores de telemarketing), de cinco horas diárias ou 30 semanais (jornalistas, radialistas). Na França, há muitos anos o limite de jornada é de 35 horas por semana, embora haja muitas exceções e a negociação coletiva (por sindicatos) possa estabelecer limite maior. Na Espanha o limite é de 40 horas semanais desde a década de 1990. Em vários países o limite é de 40 horas semanais, com jornadas especiais inferiores para várias categorias de trabalhadores.
Estudos de economistas demonstram que, com o avanço tecnológico, seria possível que as pessoas trabalhassem de 30 a 35 horas semanais, proporcionando emprego para os desempregados e aos empregados uma boa qualidade de vida, evitando-se gastos bilionários com tantos problemas de saúde, que têm como uma de suas principais causas as extensas jornadas de trabalho.
LAL – Quais os benefícios?
José Antônio -
 As jornadas menores de trabalho e seu efetivo respeito proporcionam vários benefícios não somente aos trabalhadores, mas também aos seus familiares, amigos e a toda a sociedade, inclusive ao próprio empregador, dentre os quais:
a)    Proteção à saúde do trabalhador, tendo em vista que estudos científicos têm demonstrado, há um século, que horas extras e jornadas superiores a 48 horas semanais estão entre as principais causas de adoecimentos – destacando-se as LER/DORT, dorsalgias e doenças psíquicas – e também de acidentes típicos do trabalho.
b)    Tempo livre para o convívio com a família, melhor relacionamento com o cônjuge, melhor educação dos filhos, bem como para o aprimoramento pessoal e intelectual do próprio trabalhador.
c)    Tempo para o lazer, que envolve inclusive prática de atividade física, viagens etc., um ótimo incremento para a atividade econômica relacionada a clubes, cinemas, teatros, agências de turismo, academias etc..
d)    Distribuição justa dos empregos, pois a cada grupo de 8 trabalhadores fazendo uma hora extra por dia se tem 1 desempregado.
e)    Aumento da produtividade, porque a ciência já demonstrou que o trabalhador que repousa adequadamente consegue, com a eliminação do estresse, produzir muito mais do que aquele que trabalha muitas horas por dia.
LAL – Caso não seja possível estabelecer uma jornada de 40 horas semanais, como a empresa pode lidar com esse tipo de situação?
José Antônio - 
A empresa pode conceder jornadas menores a seus trabalhadores, independentemente de previsão em lei ou em acordo com o sindicato. Aliás, empresas que praticam jornadas de 40 horas semanais ou menos, com observância dos intervalos e das pausas regulares, têm aumento de produtividade, sofrem menos com absenteísmo (faltas injustificadas) e com afastamentos dos trabalhadores por motivo de doença.
LAL – Comprovado o prejuízo da carga extensiva de trabalho, por que a legislação brasileira ainda permite um número de horas acima desse limite?
José Antônio -
 Infelizmente, o poder econômico ainda não se convenceu dos altos benefícios advindos das jornadas adequadas de trabalho. Por isso, a Lei do Motorista Profissional foi recentemente alterada para se permitir 4 horas extras por dia aos motoristas. Assim, motoristas de ônibus e caminhão continuarão a dirigir 12 horas ou mais por dia, causando tantos acidentes de trânsito e matando tanta gente, um caso de saúde pública, portanto. E o Brasil não tem um limite de horas extras, como tem a Espanha (80 por ano) e outros países.
Não por outra razão, o Brasil é o quarto colocado na vergonhosa tabela mundial de acidentes e doenças do trabalho. É preciso um trabalho forte dos agentes de saúde e estudiosos do tema para que a sociedade se convença dessa triste realidade e exija redução da jornada para 40 horas semanais, bem como limitação rigorosa das horas extras.
LAL – Qual a jornada ideal para trabalhadores e empresas?
José Antônio -
 Não há uma jornada ideal para todos. Por isso mesmo, algumas categorias – em regra melhor representadas, tendo sindicatos sérios e atuantes – têm jornadas de cinco ou seis horas por dia, de 30 ou 36 horas por semana, como já referido. Hoje já é plenamente possível que os trabalhadores tenham uma jornada de 40 horas semanais, sem qualquer prejuízo às empresas, pelo aumento natural da produtividade. Mas, sem dúvida, ninguém deveria trabalhar mais de 8 horas por dia, porque desde o século XIX os trabalhadores já cantavam nas greves: oito horas de trabalho, oito horas de descanso, oito horas de tempo livre para que a pessoa possa fazer o que bem entender, desenvolvendo sua personalidade, para o bem de todos.
“Eigth hours to work; Eigth hours to play; Eigth hours to sleep; Eigth shillings a day”