AMIGAS SE UNEM

Nos momentos mais difíceis é que se mede o tamanho e a veracidade de uma amizade. É com a junção de forças dos verdadeiros amigos que qualquer batalha árdua, como a luta contra o câncer, fica mais fácil de ser enfrentada. Foi dessa maneira que grupo de 15 amigas da analista contábil Mônica Cristina Augusto Perez, 43 anos, se uniu para ajudar a moradora de São Bernardo a passar, de forma mais leve, por todo o processo da doença, que acometeu sua mama esquerda.
Mônica precisou fazer mastectomia (retirada da mama), mas as companheiras não mediram esforços para fazê-la ter a certeza de que, independentemente de qualquer coisa, ela continuaria bela. Para isso, o grupo decidiu promover ensaio fotográfico para reafirmar isso.
A amizade teve início seis anos atrás, por meio dos filhos, matriculados na mesma escola de Ensino Infantil, no bairro Suíço, em São Bernardo. “Nos encontrávamos nas reuniões, nas festinhas e nos identificamos muito, até que chegou um momento em que fazíamos festa, sem data especial, só para nos juntarmos”, conta a consultora de vendas Cristiane Checon, 44. Para estarem unidas, mesmo distantes, criaram um grupo em aplicativo de mensagens instantâneas, o Mamães Poderosas.
Sempre atenta à Saúde, por ter perdido a mãe e a irmã vítimas de câncer – na mama e nos ossos, respectivamente -, Mônica se consultava com o médico regularmente. Ao fazer uma mamografia, veio o diagnóstico no dia 29 de setembro do ano passado: estava com tumor em uma das mamas. “A gente pensa que o mundo vai acabar quando recebe a notícia, parece que um buraco se abre no chão”, lembra ela, que é mãe de Felipe, 6, e Sophia, 3.
As amigas estavam animadas com os preparativos de uma festa para marcar a despedida dos filhos do Ensino Infantil. Mônica soube que a quimioterapia começaria um dia antes do evento. Logo depois de ser diagnosticada, pelo celular ela enviou mensagem dizendo que não conseguiria ir à comemoração, sem explicar o motivo. Mas logo contou a razão. “Não adiantava esconder.”
“Ao ler a mensagem, queríamos pegá-la no colo e, a partir daquele momento, demos todo o carinho, nunca a colocando como vítima e mostrando que ela passaria por todo o processo junto conosco”, relata a assistente operacional Neide Felicidade, 41.
Foram seis meses de quimioterapia. Ao término do tratamento, passou por exames para verificar se seria necessária a retirada da mama. Quando recebeu a resposta positiva, enviou mensagem para as amigas, desesperada. “Pensei o dia todo no que fazer para amenizar aquele momento, porque ela não é uma pessoa derrubada, aquela Mônica triste não é a que conhecemos”, recorda Cristiane.
Para reforçar que Mônica não estava só nessa caminhada, a capa das amigas, em uma rede social, exibia a foto da companheira, sorridente, com a frase ‘Somos todas Mônica’. Da imagem, surgiu outra ideia: por que não fazer um ensaio fotográfico?
A cirurgia de Mônica estava marcada para 30 de junho e o grupo de mães, às escondidas, preparava a surpresa. Contrataram uma fotógrafa profissional e, no dia 18, Cristiane a convidou para um passeio no Jardim Botânico de São Paulo. Ao chegar lá, deparou-se com as amigas e todos os preparativos para a sessão de fotos.
Há uma semana, Mônica foi ao médico e não há mais nenhum vestígio da doença. “Elas fizeram com que eu me sentisse importante. As pessoas não devem ver o paciente de câncer com dó, como um coitado. Tratem a situação com leveza, é isso que faz com que a gente fique cada vez mais forte”, ressalta Mônica.
A iniciativa das amigas é vista de forma positiva pela professora de Psicologia da USCS (Universidade Municipal de São Caetano) e colaboradora do Chronos-IP/USP (Centro Humanístico de Recuperação em Oncologia e Saúde do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo) Ivete de Souza Yavo. “Muito bacana a ideia do ensaio fotográfico, porque a foto nos ajuda a pensar ou enxergar outras facetas que não costumamos ver. Outro aspecto importante diz respeito à questão da própria feminilidade. Nós somos mulheres, porque somos muito mais do que um seio, do que um cabelo. A gente acaba esquecendo do quão grande somos, das coisas que construímos, então, todo o apoio emocional e psicológico só vai vir a compor a melhora dessa paciente e o melhor enfrentamento da doença”, ressalta. “A doença faz parte desse cenário que é a vida, não é porque tivemos um diagnóstico difícil que a gente tem que encarar isso como se fosse o fim de uma história, mas talvez como um novo redirecionamento da própria história”, completa a especialista.
“As amigas foram fundamentais, pois elas emanaram energia e fizeram com que minha mulher tivesse mais vontade de viver. Amizade, carinho e amor são essenciais nessa luta”, salienta o marido de Mônica, Elson Flávio Perez, 40. Munidas desses sentimentos elas travam qualquer batalha e, em coro, declaram: “Somos uma por todas e todas por uma”.
Fonte: Diário do Grande ABC